segunda-feira, 18 de junho de 2012

JANELA: NOVO MUNDO POR TRAZ DELA.

                                                                            
Por: Bárbara Garcia Silveira


Resumo: A vitrine vista do seu conceito mais antigo: janela, para criação de um novo “mundo imaginário”. É possível se criar estratégias para conquistar o olhar do publico alvo de acordo com o que desejam e procuram em um produto. Alguns conceitos para a criação de uma nova e desejada situação que causam desejo nas pessoas se dão em um espaço aberto iluminado e aberto a imaginação. São subdivididos públicos alvo e cada um terá uma sensação ao olhar sendo atraídos e destinados com sua vivência e desejos.
Palavras Chave: Novo, Janela, Olhar, Público-alvo, Desejo.


     O olhar na maioria das vezes é captado, cativado, fascinado pela ilusão especular. O que cada um de nós contempla na vitrine, de fato, é seu próprio imaginário social. Quando uma janela é aberta e alguma cena é vista a partir dela, tem-se novas impressões e sentimentos de acordo com o que é visto, a vitrine, sendo comparada a uma janela aberta é uma peça importante no marketing de uma empresa porque cria condições favoráveis para mostrar um produto, identificar uma marca, apresentar tal empresa, expressar um tema e atrair o olhar do publico visado.

     A janela que se abre para explicitar um novo universo traz um novo instrumento de visão, um espaço aberto à imaginação como suporte da visibilidade criativa e criadora. O prazer se instala junto ao discurso da vitrine, pois é por meio da promessa e a confiabilidade da eficácia do produto exposto que se cria esse prazer que faz com que cada observador, ao olhar uma encenação, encontre-se individualmente, tenha o desejo de estar incluído no mundo e idéias passadas através da janela.

     Desde o surgimento do comércio ate a atualidade, a vitrine é um espaço-simulacro em que se cria uma ilusão referencial de determinado momento social no mundo das aparências. Cada discurso é único e especifico, mas todos inseridos em um quadrilátero-vitrine, desvenda espaços e aglutina signos no interior de sua moldura. No inicio, a janela ou a abertura das casas dos mercadores da idade media mostravam o seu interior ao mesmo tempo em que expunham os produtos fabricados e postos a venda.  Depois, o cabinet de curiosités, alocado na casa burguesa renascentista, fazia com que os moradores o olhassem com curiosidade. Bem mais tarde a janela-vitrina dos grands Magazins, com seus grandes vidros e sua exuberância, mostrava o que havia de mais novo no fim do século XIX.

     A iluminação do cenário é ponto de referencia para o ambiente, é o primeiro elemento que se deve pensar, a luz participa da construção do cenário, iluminando ou colorindo de maneira diferente cada elemento conforme planejado no projeto. Os olhos enxergam aonde tem luz.  É bem verdade que as formas adquirem contornos na luz, mas a luz, por sua vez, é um elemento que possui vida própria e parece deslizar livremente por sobre as formas.

     O Autor Mauri Luiz da Silva diz que para que se consiga fazer um projeto de iluminação, por mais simples que seja, é indispensável conhecer os produtos que fazem a luz e os efeitos, a luz é gerada por fonte de luz. Ao acontecer esse fenômeno físico, ela será dirigida a um equipamento chamado luminária/projetor. As lâmpadas se distinguem entre as mais parecidas com a luz solar, que são as mais antigas lâmpadas de filamento e também as artificiais e brancas, que são as halógenas e as leds.  

     Os iluminados espaços destinados a olhares também são essencialmente comerciais, que ao mesmo tempo em que persuadem, mostram produtos e indicam qual é a moda. A vitrine reforça a idéia de um querer, o da moda, construída pelo marketing e pela publicidade, presente na mídia, que dita o que deve ser usado para cada perfil de consumidor o que atua no reconhecimento da marca e no publico alvo que deseja atingir.

     Os materiais usados, as cores, as formas, a quantidade de objetos e a colocação deles dentro da janela, para se ter melhor repercussão, dependem do publico alvo que se deseja atingir. Para a escolha do cenário da vitrine é necessário ficar atento aos desejos e princípios do público alvo que você deseja atingir se interessa, pois essas pessoas provavelmente entrarão na loja se algo mostrado na vitrine chamar sua atenção. Para simplificar e ajudar o marketing das empresas, foram criadas cinco subdivisões de pulico alvo, dentre elas, o discurso técnico, lúdico, ecológico, sofisticado e sofisticado barroco.

     Para simplificar e ajudar o marketing das empresas foram criadas cinco subdivisões de pulico alvo. Na tentativa de modalizar o cenário a partir do sensível de acordo com cada espectador, é possível criar uma subdivisão de categorias que podem ser adaptadas às descritas por Jean Marie Floch, No seu livro identités visules, a saber.  Encenação técnica, que é uma exposição com a finalidade precisa de informação, funcional e convencional; o cenário lúdico, que é relacionado com o colorido, ao mágico, ao divertido  alegre; a montagem ecológica, que é coerente com a natureza ou que trabalha com elementos naturais; o cenário sofisticado, que é o elegante, original, no qual cabe o universo das marcas e do design.

     Para um discurso técnico é preciso uma nova informativa, mais fria, com ritmo compassado, há nela uma seqüência de discurso, na qual o intuito é expor um produto didaticamente, a luz branca cai muito bem para esse tipo de situação causando uma leitura clara e simples.

     O discurso lúdico é uma maneira divertida de apresentar um produto, principalmente quando ele é altamente técnico e muito difícil de mostrar suas características físicas visualmente. Há menos produtos, mas os existentes são mais valorizados, com luzes focadas nos tais, geralmente valorizará detalhes marcantes.

     No discurso ecológico os materiais naturais e rústicos levam o espectador a situar-se ou imaginar-se em um ambiente natural, numa paisagem não urbana. As matérias são granulosas, foscas, de textura seca e áspera, entram em sintonia com tons terrosos, brancos, verde claro. A luz amarela como nascer do sol ou branca como a do meio dia. Causam efeitos interessantes luzes azuis ou verdes em pequena escala nos cantos ou em determinados objetos.

     Já no discurso sofisticado existe uma subdivisão entre uma encenação mais vazia, com um ponto de interesse central, que pode ser chamada de clássica, moderna e arrojada, e outra mais cheia, com vários pontos de interesse, que poderia ser nomeada barroca, carregada pela quantidade enorme de materiais e detalhes existentes. Assim, em um discurso sofisticado moderno prevalecem poucos elementos na encenação, as exposições contem dois ou três produtos, há um clima mais frio, um ritmo calmo e pausado em que a luz predominante é branca azulada; as cores mais freqüentes são o branco, o prata, o preto, o azul e o verde profundo; os metais são aço e alumínio.

     Uma montagem sofisticada barroca, aposta na exposição de muitos produtos (agrupados de acordo com seu gênero, cor e modelo). O clima é carregado e a luz predominante é amarela ou azulada. As cores quentes com degrades suaves nos tons e sobre tons são o marrom, o vinho, o ocre e o laranja. Os metais mais usados são o ferro, o latão e o cobre.

     A leitura da vitrina, num momento é simultânea e global, mas em outro pode ser lida de modo linear e continuo ou ainda dilacerando partes: tudo é valido para a construção do discurso de toda e qualquer vitrine em que o produto destaca-se e torna-se o mais importante, enquanto os elementos ao seu redor tornam-se sedutores e decorativos, contam histórias, criam enunciados, persuadem compradores e prometem satisfação.

MODA/INDUMENTÁRIA JUVENIL URBANA: SIMBOLOS DE COMUNICAÇÃO E FORMAÇÃO DE IDENTIDADES CORPORAIS

Por: Iara Viana e Laís Macedo



No presente trabalho buscou-se investigar alguns elementos constitutivos da comunicação da indumentária a partir de uma análise da moda que está especialmente nas ruas, não só com o perfil atraente e sedutor, mas também como forma de comunicação de estratégias de poder e a ideologia busca-se analisar como esse perfil e sua veiculação por meio de revistas de moda ostentam um discurso, que se consolida como contribuição importante para o desenvolvimento da identidade social contemporânea.
É possível afirmar que a moda e indumentária de rua fornecem elementos acerca da relação existente entre expressão, linguagem e comunicação. Esses itens da moda e indumentária, na sociedade contemporânea apresentam-se como produtos fetichizados entre os fabricados e consumidos pela sociedade capitalista.

Palavras chave: Indumentária – jovens – comunicação – moda contemporânea

A moda diz respeito a um universo múltiplo de fenômenos- matérias primas, processos produtivos, custos de fabricação estabilidade cultural e hierarquia social. Essa observação implica o reconhecimento da complexibilidade da temática ciente de que qualquer abordagem totalitária torna um assunto simplista
Vários autores vêm se dedicando a tratar do tema da sociedade contemporânea de forma diferenciada. Dentre eles Mafessoli (2000), Os Tempos das Tribos auxilia na compreensão de que a sociabilidade da juventude passa pela convivência deles com o ambiente urbano. Esse ambiente teria a função de criar um corpo coletivo e de modelar um ethos, que se estabelece entre a ética e a estética, ou seja, as expressões formais que se vinculam aos valores coletivos. Nos centros urbanos as diferenças culturais tornam-se mais visíveis. Os grupos de identidades se auto-rotulam “trups”, “gangues” e “tribos”, etc., e esta identidade se torna explícita visualmente. Dessa forma, pode-se ver nesse visual o diferencial que demarca o espaço de cada tribo no cenário da cidade.
Já segundo o sociólogo Georg Simmel ( Sociologie et Épistemologie, Paris,1981, p.116.), afirma que “a moda no trajar, na ideologia ou no linguajar, etc, traduz essa inflação do sentimento suscitado pela atmosfera ambiente”. O fenômeno da moda surge para singularizar a relação de sentimento induzido em um lugar. Simmel vê isso como fenômeno sociológico dos mais instrutivos. O individuo se sente conduzido pelo ambiente palpitante das massas como que por uma força exterior, indiferente ao seu ser ou a sua vontade. Desta maneira podemos dizer que o indivíduo em geral é impulsionado a fazer como os outros.
Para o filósofo Gilles Lipovetsky (2008), a sociedade moderna opera uma reviravolta inaudita que a separa radicalmente da sociedade dos séculos passados. O autor destaca que não é mais imposta uma coerção de disciplinas. A socialização constitui pela escolha de imagem. Uma paixão direcionada para comunicação publicitária e não pela ideologia, o que prevalece é o jogo da sedução do consumo e do psicologismo. Pode-se caracterizar empiricamente a sociedade contemporânea, como a sociedade de consumo, por diferentes traços: elevação do nível de vida, abundância das mercadorias e dos serviços, culto aos objetos e dos lazeres, moral hedonistas e materialista, etc. A sociedade contemporânea centrada na expansão das necessidades é, antes de tudo aquela que reordena a produção de consumo de massa sob a lei da obsolescência, de sedução e da diversificação, aquela que faz passar o econômico para a órbita da forma da moda. A forma moda a que manifesta em toda sua radicalidade, na cadência acelerada das mudanças de produtos na instabilidade e precariedade das coisas materiais. A lógica econômica é a regra do efêmero que governa a produção e o consumo dos objetos, ela pôs fim ao ideal da permanência. O consumo maciçamente deixou de ser uma lógica de tributo estatutário, passando para a ordem do utilitarismo e do privatismo individualista. “A pretensão social não está mais em jogo, mas sim a sede de imagens e de espetáculos, o gosto pela autonomia, o culto do corpo, a embriaguez das sensações e do novo.” (LIPOVESTSKY, 2008, p.173).
Como estamos no reino das imagens heterogêneas, poliformas, saindo do primado da lógica das classes, é a era das motivações íntimas e existenciais, da gratificação psicológica, do prazer para si mesmo, da qualidade e da utilidade das coisas a qual assume o seu posto. Nesse movimento da modernidade social, podemos observar o extraordinário processo de emancipação privada dos indivíduos, livres paras as suas realizações pessoais, seus ideais, suas relações sexuais, familiares, de realizar e gozar a sua existência.
O código do novo nas sociedades contemporâneas é particularmente inseparável do avanço da equalização das condições e da reivindicação individualista. Quanto mais os indivíduos se mantém a parte e são absolvidos por si próprios, mais há gostos e abertura para as novidades. Esse valor do novo caminha paralelamente ao apelo da personalidade da autonomia privada. (LIPOVETSKY, 2008, p.182).
Compreende-se que o atrativo do novo dá sentido de liberdade pessoal como experiência vivida, uma aventura do eu, uma aspiração da autonomia individual.
Na visão de Lipovetsky, a publicidade amplia seu raio de alcance constantemente, invade todos os espaços, não tem fronteiras. Ela, está presente nas televisões estatais, colóquios, manifestações artísticas e esportivas, imprensa, filmes, artigos de todos os gêneros, das t-shits às velas de windsurfe, os nomes das marcas são exibidos em toda parte do nosso cotidiano. Na era da publicidade criativa, a festa é espetacular: os produtos devem se tornar estrelas, e transformá-los em seres vivos, criar marcas e pessoas com estilo e um caráter. A sedução publicitária investe no lucro personalizado, humaniza a marca, dá-lhe uma alma e a psicologiza.  É a apoteose da sedução.
A publicidade é típica do processo de dominação burocrática moderna. Pois os criadores especializados criam as mensagens persuasivas ligadas ao lógico burocrático próprio das sociedades modernas, usando métodos suaves. Tratam-se como instituições disciplinares, de guiar de fora os comportamentos, penetrando na sociedade até nos seus últimos recôncavos.  Os efeitos da mídia são epidérmicos, a publicidade com a sua força e o seu poder são efêmeros da moda, na verdade ela não impede o indivíduo de refletir e buscar a verdade. Ela pode, no máximo, retardar ou ampliar por um tempo curto o reconhecimento público do verdadeiro trabalho intelectual em execução. A força da mídia apresenta-se como uma das características marcantes do mundo contemporâneo, sua capacidade de oferecer um universo de mudança de ares, de lazer, de esquecimento e de sonho.  A cultura mass-midiática cresce no campo ilimitado de projeções e identificações, encoraja as atitudes passivas, desestimulando as atividades militantes, ampliando a esfera de despossessão subjetiva, e agindo como instrumento de integração ao sistema capitalista.
Enfim, ”vivemos nos programas curtos, na mudança perpétua de normas, na estimulação de viver imediatamente: o presente erigiu-se em eixo maior da duração social. ( LIPOVETSKY, 2008, p.265).
A moda e indumentária são considerados fenômenos culturais, no sentido de que a cultura pode ser entendida como um sistema de significados. Malcolm Barnard, na sua obra Moda e Comunicação, contribuiu para a análise da moda e da indumentária abordando-a no sentido  sócio-antroplógico comunicacional. São formas pelas quais, as experiências, os valores e as crenças de uma sociedade se comunicam através de atividades, artefatos e instituições. (BARNARD, 2003, p,49).
Quando Umberto Eco (apud BARNARD, Malcolm, 2003, p.50) declara que falamos através de nossas roupas quer dizer com isto, que estamos usando roupas para fazer a mesma função de coisas que a palavra escrita ou uma frase faz. Para Barnard esta é uma visão mecanicista da linguagem do significado, a qual encaminha a explicação mecanicista dos significados em moda e indumentária. Os significados dos trajes parecem preexistirem quando estão sendo selecionados e combinados para formarem um conjunto. É como as peças de roupa possuíssem significados nos quais o usuário faz a combinação para formar um conjunto
Seguindo a tradição semiológica Barthesiana, e das contribuições dos sociólogos de Simmel, Veblen e outros, Barnard defende o argumento de que a moda é comunicação, destacando como são gerados e comunicados os significados, e como a partir deles são estabelecidos relações de poder e mecanismos ideológicos, pelos quais se constroem e formam identidades de gênero e de classes. Barnard propõe a pensar em comunicação com algo que torna o individuo membro de uma comunidade e pode-se interpretar comunicação como interação social através de mensagens. Assim a moda e a indumentária  seriam entendidas como elementos usados para dar sentido ao mundo  e às coisas e pessoas que dele fazem parte.
Ressalta Barnard por intermédio da indumentária o indivíduo interage com a comunidade. Podemos tomar como exemplo os grupos jovens do fim da década de 1980, como os Góticos, Ravers  e Casuals. Neste contexto do modelo semiótico, o significado das roupas resultam da negociação entre os papeis do estilista, do usuário e do espectador da roupa. Não podendo esquecer que esta leitura de significados feita pelo estilista,  ou pelo usuário e também pelo espectador, passa a ser é uma leitura relativa, pois trás  a suas experiências  culturais e suas expectativas para fazer pressão sobre o traje na produção e  na troca de significados.
Percebemos a moda como fenômenos culturais e de comunicação. Considera-se moda e a indumentária no sentido cultural são as formas e as maneiras que  um grupo se constrói e se comunica sua identidade com o próprio membro do  grupo ou outros  grupos. São comunicativas  na medida que constituem modos não verbais pelas quais produzem e trocam significados e valores. A moda e a indumentária como fenômenos culturais e comunicativos está estritamente ligados às questões de poder, de status em termos de ideologia.
O fenômeno moda é aqui abordado em sua confluência com a cultura contemporânea, e com o advento da comunicação, expressão e  representação de suas idéias, dos valores e das formas de vida na moderna urbe.
De acordo com o artigo da antropóloga Valéria Brandini (2007), Vestindo a rua: moda, comunicação & metrópole, a moda contemporânea dos designers de vanguarda ingleses, orientada por referenciais estéticos comportamentais e de estilo derivados da rua, torna-se mais que roupa, tendência ou estilo em voga. Ela torna-se objeto de ação expressiva, de comunicação de mensagem, de transmissão de significados, não apenas referencial de status, mas forma de arte e de comunicação.
Desde a modernidade, a moda como entidade fluida a incorporar e a ser incorporada, está presente nas vitrines da urbe, representando um simulacro, constitui o interesse. É um chamariz de consumo, um jogo de sedução. Queremos vestir o que está na moda, queremos nos vestir como o coletivo e queremos ser únicos e especiais. Na presença da imagem da contemporaneidade, nos gerando uma sensação de obsolescência, de que não alcançamos o presente e estamos impulsionados para o futuro.
Como Valéria Brandini relata, a moda pode ser lida como uma vitrine do mundo moderno. Onde a realidade contemporânea é a base do conceito de criação, além de converter-se em forma de comunicação. Ela permite a expressão da forma como indivíduos e coletividades sentem e se manifestam sobre suas formas de vida. Percebe-se que a pesquisa desenvolvida entre a cultura urbana contemporânea e as criações dos designers ingleses, que são a grande parte desses criadores, inspiram-se na rua, na cultura urbana e na vivência marginal de grupos de estilos que habitam os grandes centros urbanos.
A moda é um fenômeno contemporâneo, pela velocidade dos atuais processos de comunicação, escapa-nos à prisão conceitual. Ressalta Valéria Brandini., cada designer de moda possui a sua maneira peculiar de traduzir, na criação da vestimenta. linguagens e processos comunicacionais do universo empírico da rua, considerando esta uma característica fundamental que transforma a moda contemporânea como objeto de conhecimento antropológico, histórico, social e político.
Através da moda/indumentária podemos compreender o tempo em que vivemos, ter conhecimento de sua história, de sua origem. O espaço percorrido até a chegada do presente.
A imagem é uma característica da sociedade contemporânea. Os jovens de hoje com a sua imagem, cultuam o corpo, uma cópia das imagens que estão representadas nas vitrines, na mídia, nos filmes, na rua  e no outro. O desejo de imitação, da equalização e ao mesmo tempo, ser diferente.
A moda ganhou espaço e foi adotada no cotidiano das pessoas. A partir do instante em que a moda atinge as ruas e entra no guarda roupa, a moda adquire o aspecto da fala. O gosto pessoal passa a prevalecer. É dessa forma que a indumentária contribui como um eficaz meio de comunicação de valores e princípios e desejos.

Referências:
ALMEIDA, Mariia Isabel Mendes  & EUGÊNIO, Fernanda , CULTURAS JOVENS: novos mapas do afeto. Rio de Janeiro: jorge Zahar Editor, 2006.
ALMEIDA, Mariia Isabel Mendes ,TRACY, Kátia Maria de Almeida,Noites Nômades . Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 2003.
BARNARD, Malcolm . MODA E COMUNICAÇÃO. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.
BENJAMIM, Walter, PASSAGENS; Ed. UFMG. Belo Horizonte, 2006.
CANCLINI, Néstor García. CULTURAS HÍBRIDAS. São Paulo: Edusp, 2006.
CASTILHO, Kátia. MODA E LINGUAGEM. 2 Ed.. Rev. Reimp. São Paulo; Ed. Anhembi Morumbi, 2004.
CIDREIRA,  Renata Pitombo Cidreira, Os Sentidos da Moda, Editora: Annablume.
LIPOVETSKY, Gilles. O Império do Efêmero. A moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
MAFFESOLI, Michel. O Tempo das Tribos: O declínio do individualismo nas sociedades de massa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2000.
POLLINI, Denise ,Breve história da Moda,  Editora Claridade, São Paulo, 2007.Revista Capricho - Edições de 04/01/2009 à 07/02/2009. Editora Abril.




terça-feira, 12 de junho de 2012

Moda Artesanal

Por Amanda Botrel, Tabata Azevedo e Giulianna Oliveira


A moda artesanal

Resumo: O texto experimental a seguir fala sobre a moda artesanal e sua crescente presença nas passarelas e nas ruas, a expansão do mercado desse ramo da moda e como se dá o feitio das peças.

Palavras-chave: Moda artesanal, artesanato, arte, moda arte.

A moda artesanal, também chamada de moda arte, não é executada pelo processo industrial, mas sim pelo cuidado meticuloso de artesãos.  Na ultima década, as peças artesanais, vem sendo muito utilizadas pelos estilistas em suas coleções, ganhando grande espaço e valorização no mercado.

            “Historicamente, o artesanato é uma tradição, uma linhagem de conhecimento que vai passando de pai para filho, de mestre para discípulo. Na opinião da tecelã Gilda Joppert, o artesão é uma espécie de ecologista da cultura, porque preserva conhecimento dos materiais e das técnicas.” (FARJADO, Elias, 2002, p 07)

A peça de roupa ou algum acessório feito artesanalmente é essencialmente o trabalho manual de um artesão. Mas com a mecanização da indústria, a peça artesanal passou a ser identificada também como aquela que pertence à cultura popular.

            “Qualquer objeto, até o mais corriqueiro, encerra uma certa engenhosidade, escolhas, uma cultura. Cada objeto traz consigo um saber especifico e um certo excedente de sentido, o que se pode constar no modo pelo qual se toma posse dele, no qual intervêm moral, princípios distintivos, escolhas pessoais, pelo modo que se faz uso dele, no qual se revelam um ensinamento e uma moral do compromisso, estabelecido por normas precisas de boas maneiras, pelo modo, enfim, de conservá-lo.” (D. ROCHE, Apud. SORCINELLI, 2008, p. 49)

Considera-se uma legítima roupa artesanal, todo trabalho manual, onde mais de 80% da peça foi fruto da transformação de matéria-prima pelo próprio artesão. Além disso, esse produto normalmente reflete a relação desse artesão com o meio onde ele vive e sua cultura.

“A arte evidencia-se no artesanato como forma de expressão do gênio criador do homem e de sua ordem estética, pois permite, sumariamente, a materialização da subjetividade do artesão através da replicação de objetos, que se diferenciam uns dos outros por pequenos detalhes na forma de criar, copiar e manusear a matéria-prima. O artesanato, ainda hoje tem como fonte de inspiração as crenças religiões tradições, modos de vida e valor, e promove a representação da realidade cotidiana através da produção e seriação de utilitários como vestimentas, adereços, mobiliários, peças decorativas e funcionais.” (ADAN (1947) apud MARINHO, 2007, p. 04)

A roupa artesanal pode ser feita com ou sem ajuda de ferramentas e mecanismos caseiros, que as pessoas dão  às matérias brutas, material de descarte e sobras do consumo industrial, visando produzir peças utilitárias, artísticas e recreativas, com ou sem fim comercial.

“O estilista mineiro Ronaldo Fraga encontrou no artesanato o ponto de equilíbrio dessa equação. Ele trabalha com comunidades de artesãos para introduzir em suas roupas e acessórios elementos genuínos da cultura popular. “É um trabalho que me realiza. Além de contribuir para a afirmação da cultura local das comunidades com as quais trabalho, também é importante na geração de renda.” (SEBRAE, 2008, P. 35)

Na concepção do escritor mexicano Otavio Paz, Premio Nobel de Literatura, falar de uma peça artesanal – generalizando todas elas, não só as da moda – falar de artesanato é falar mais de pessoas do que de objetos, pois no produto resultante do trabalho artesanal é um produto “com alma”, onde estão presentes no saber, arte, a criatividade e a habilidade.

“O artista tem uma técnica, um estilo, hábitos pessoais e uma personalidade própria, que, por mais elegantes ou interessantes que sejam são, no entanto, previsíveis. No entanto, quando artista tem que combinar uma configuração exterior a ele com a configuração que traz no interior, o casamentos das duas configurações resulta em algo nunca visto, mas que é apesar disso, um prolongamento da sua natureza original. O cruzamento ou casamento de duas configurações se torna uma terceira configuração, que tem vida própria.” (NACHMANOVITVHM, 1993, p.80)

A moda artesanal que nos é apresentada tem forte influencia do movimento Hippie, o qual nasceu na Califórnia, na década de 60, impulsionado por músicos e artistas em geral. A característica básica dessa moda foi o uso da cor, Introduziram o estilo unissex e seu gosto pelo colorido estava associado à cultura psicodélica. As roupas eram em geral estampadas e faziam alusão aos símbolos do movimento: paz e amor, além de flores e motivos orientais. Os sapato s e bolsas tinham aspectos artesanais, próprios de culturas não industrializadas. Houve grande valorização de adornos de origem folclórica.

O movimento Hippie iniciou uma revolução que pregava o questionamento não so da sociedade capitalista como também a sociedade industrial. Para eles a sociedade de consumo deveria morrer de forma violenta. A sociedade da alienação deveria desaparecer da historia, Dessa forma entendemos a participação dos Hippies no mundo da moda artesanal.

Nas ultima décadas vemos que é notável o crescimento da moda artesanal nos grandes desfiles do mundo. Um exemplo é a grife Parisiense Mayet, que na Semana de Moda de Paris de 2012, em seu segundo desfile apresentou sua coleção, que teve grande destaque para a forma em que foi produzida, a missão dessa grife é achar artesãos de vários locais do mundo, principalmente em países que precisam de incentivos econômicos como: Quênia, Colômbia, África do Sul, Índia e Mongólia. A coleção trouxe tecidos orgânicos e estampas feitas manualmente.

            “Quando você aplica o trabalho artesanal nas coleções prêt-à-porter, as peças se transformam em itens de alta-costura. Afinal, alta-costura é artesanato.” Afirma Carlos Miele que é um notável estilista da moda brasileira e com grande renome internacional. Miele passou a destacar em suas coleções a importância do artesanato, chamando atenção para o impacto dos trabalhos manuais no fashion business.

As relações que se estabelecem entre a moda e o artesanato se expressam de varias formas: o artesanato buscando alguns conceitos presentes na moda. Portanto a junção entre o mercado e elementos culturais fortalece o produto, valorizando o papel do artesão enquanto criador e artista que mantem as raízes culturais quando se apropria de elementos pertencentes a uma cultura, seja o artesanato, a música, ou a dança.


Bibliografia:

CALANCA, Daniela. História social da Moda. São Paulo: SENAC, 2008.
CANCLINI, Nestor Garcia. As Culturas Populares no Capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1983.
ERNER, Guillaume. Vitimas da moda: como a criamos, por que a seguimos. São Paulo: Senac, 2005.
FARJADO, Elias; COLAGE, Eloi; JOPPERT, Gilda. Fios e Fibras: oficina de artesanato. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: SENAC, 2002.
MARINHO, Heliana. Artesanato: tendências do segmento e oportunidades de negócios. SEBRAE, Rio de Janeiro, 2007. Acessado em: 02/06/2012
Disponível em:
http://www.biblioteca.sebrae.com.br/bds/bds.nsf/subarea2?OpenForm&AutoFramed&jmm=ARTESANATO
MAY, Rollo. A Coragem de Criar, 15° Ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1975.
NACHMANOVITCH, Stephen. Ser Criativo: o poder da improvisação na vida e na arte, 3°ed, São Paulo, Summus, 1993.
SEBRAE. “Artesanato na moda” In: Artesanato: Um Negocio Genuinamente Brasileiro (edição Comemorativa 10 anos). V.1, n.1, mar. 2008.
SORCINELLI, Paolo. Estudar a moda: corpos, vestuário, estratégias. São Paulo: Senac. 2008.

Vitrine



Por: Maria Rita Vieira e Nathália Nunes.

Resumo:
Ao se deparar com uma vitrine o universo cognitivo de cada observador o faz sentir necessidade de possuir determinados objetos, sensibilizados sensorial e afetivamente. A partir daí apresentamos as diversas possibilidades de chamar a atenção de quem passa em frente à vitrine, apresentando os diversos recursos utilizados na composição de uma vitrine e a maneira como esta incentiva o consumidor na compra final.

Palavras-chave: história, cenário, sensações, iluminação, cor, mercadorias, venda.

A vitrine

Na Idade Média, os artesões mostravam seus produtos tanto em ambientes públicos como no interior de suas casas, nas quais as portas e janelas de suas residências se transformavam em vitrines. A vitrine não só mostrava os produtos, mas também expunha o modo como estes eram valorizados e inseridos no meio urbano. Havia também o homem-vitrine ou vendedor ambulante que apresentava as mercadorias sobre o seu corpo, explorando sua criatividade para direcionar o olhar do passante para si.

As vitrines são imagens comerciais que se espalham pelas feiras mundiais, pelas ruas e galerias, provocando sensações e criando laços, atraindo com a intenção de vender o que as pessoas precisam e o que são incentivadas a precisar. Ela também tem o poder de moldar o olhar pela atração, fazendo com que o passante pare para observá-la, criando um ambiente de sedução através do cenário que esta incorpora em seu interior. A vitrine serve para manipular o observador e induzi-lo à compra. A vitrine é mais que uma manifestação, é também uma discussão de uma construção textual, onde se coloca um produto em percepção para que os demais possam percebê-lo.

Hoje as vitrines se utilizam de vários artifícios, manequins, luzes, cheiros, texturas e outros recurso que podem ser utilizados de acordo com o tema, aguçando a percepção do observador e fazendo que ele crie uma identidade com a loja.


As vitrines das cidades tendem a refletir a dinâmica e o imaginário da paisagem urbana. Elas expõem produtos, marcas e serviços, lançando mão de toda uma programação visual no espaço da loja, com o objetivo de incentivar a compra.


Ela é mais do que um espaço de exposição, na medida em que reflete o sujeito que a observa, ela cria um laço com o mesmo. É considerada hoje uma técnica de mercado para atrair o cliente e estimular o consumidor a entrar na loja.


Estudiosos acreditam que a vitrine aumente até 50% das vendas. Um grande desafio hoje para o varejo moderno é criar experiências de consumo de acordo com o estilo de vida de cada segmento de público.


Uma vitrine mal elaborada pode passar um sentido distorcido sobre o produto fazendo com que haja uma queda de venda.

A vitrine deve ser cuidadosamente planejada em todos os sentidos, para que fique claro a sua mensagem ao seu público-alvo.


Em geral são colocados em exposição peças de destaque da linha de produtos da loja, lançamentos, novidades, podendo se apropriar do espaço para mostrar produtos de boa qualidade que a loja comercializa. Uma questão que muitos vitrinistas se atrapalham é quanto ao volume de informação, isso pode confundir seu cliente e fazer com que ele perca o interesse.


A vitrine deve estar sempre em consonância com a loja, para que haja uma comunicação clara. A iluminação, temperatura, som ambiente são elementos importantes para promover o produto. O cliente deve sempre se sentir a vontade desde o momento em que se encontra com a loja por meio da vitrine ao momento em que fecha uma compra no interior de estabelecimento.

A iluminação do cenário é o que mais chama a atenção na vitrine, sendo o primeiro elemento a ser pensado, o primeiro a ser instalado e o último a aparecer na composição, pois só quando a luz é acesa insere-se no discurso da vitrine a transformação projetada, almejada e, normalmente, alcançada. A luz demarca o produto a ser apresentado, suas diferenças em relação a outros equivalentes, profundidade e teatralização da encenação. A luz não deve ser vista, somente percebida. Ela possui propriedades que também podem ser aplicadas à construção das vitrines.


A iluminação, o brilho e o cromatismo, tornam possível modalizar a luz pela maneira como incide sobre os produtos na montagem, ao focar, direcionar, colorir e materializar os elementos no espaço visível de um modo organizador, como um universo coerente e significante.


As funções da luz são: transformar alguns elementos constituintes da vitrine, mudar a aparência das texturas e complementar o cenário aumentando seus efeitos de sentido que evocam no espectador sensações visuais e táteis, a fim de seduzi-lo.


A vitrine tem uma apreensão, tanto intelectiva quanto sensível, de forma simultânea num primeiro momento e, no instante seguinte, os elementos são apreendidos por partes, ou seja, um a um.


Conforme a quantidade de observadores em frente à vitrine será determinada sua leitura, isto é, a marcação dos planos, a instalação dos produtos, dos elementos decorativos e dos suportes de apoio.

A gama de matérias é múltipla e de grandeza infinita, pois qualquer matéria – de papel a madeira, de plástico a metal, de tecido à pedra, de sucata a obras de arte – serve para criar efeitos de sentido, sensações ou fantasias, resultando em encenações inusitadas. Os suportes têm qualquer forma e podem ser de qualquer material: um manequim, uma tábua natural ou forrada, um cabideiro de madeira ou metal, placas de vidro, de acrílico ou de aço, aramados, telas, caixas, bancos, enfim tudo se transforma em suporte. Cabe ao vitrinista escolher o material ideal a ser utilizado. A ideia principal é inovar, visando novas experiências através de suportes conhecidos.

A cor é outro elemento fundamental para o vitrinista, pois supera barreiras linguísticas, proporciona comunicação que vai do consciente ao subconsciente e, quando bem utilizada, constitui um dos principais elementos para fazer com que o observador seja atraído de forma sedutora pelos elementos de composição do cenário e induzido a entrar na loja.


A boa combinação da cor e da iluminação das vitrines pode elevar em até 75% as vendas das lojas de varejo. Quando trabalhadas de forma correta, exerce um poder de domínio e impacto enorme, chamando a atenção do cliente e aguçando sua curiosidade.


As cores quentes estimulam as pessoas e as deixam mais dispostas. São usadas para alegrar o ambiente, interessantes para lojas que atendem a um público adolescente, segmento teen ou mesmo lojas infantis, que buscam cores alegres.


Cores frias proporcionam calma e tranquilidade, são bastante utilizadas em hospitais, lojas de informática, livrarias e lojas de discos.

A partir dos sinais captados por qualquer pessoa até a aquisição do produto, estímulos e sensações levam a comportamentos diferentes. De acordo com o universo cognitivo de cada consumidor, depois da sua experiência vivida, ele será incentivado a desejar possuir tal produto, e assim, a compra será realizada: quer seja uma compra razoável economicamente, quer seja uma aquisição simbólica e não-razoável economicamente. Para isso, as montagens partem da esfera da intimidade para a esfera pública, passando pela esfera pessoal e social, pois o produtor do texto-vitrina olha primeiramente para dentro de si depois para o que os outros olham neles, na lógica sob a qual se constrói a própria recepção das vitrinas.



Bibliografia:

Vitrina: Construção de Encenações / Demetresco, Sylvia. São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2001.
Vitrina do Outro Lado do Visível - Solange Bigal . São Paulo: Nobel.
Vitrina em Diálogos Urbanos / Demetresco, Sylvia. São Paulo : Editora Anhembi Morumbi, 2005.
Bibliografia Complementar:
http://www.mundocor.com.br/cores/cor_vitrine.asp, acessado às 11:20hs, 04 de Junho de 2012.
http://www.megapolomoda.com.br/novidades/detalhe/305/, acessado às 11:20hs, 04 de Junho de 2012.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Lost

Por Thiago Bernardo


O editorial conceitual "Lost", tem como personagem principal um indivíduo não pertencente ao espaço urbano. Alheio ao concreto o sujeito se perde, dissolve e se multiplica diante de tal mundo. O individuo perde sua identidade e se integra passivamente à linearidade e dureza do concreto.
Por ser este um editorial conceitual, o foco não está nas roupas, que ora são elas peças reais do vestuário e em outros momentos são apenas tecidos e retalhos de couro presos ao corpo.




Ficha Técnica
Fotógrafo: Thiago Bernardo
Modelo: Artur
Styling: Thiago Bernardo
Assistente: Flávia
Locação: Escola Guignard

Moda e Identidade


Por: Fernanda Moraes e Lara Rogedo

Resumo: O artigo faz uma análise sobre o corpo, sobre a moda e os relaciona com a identidade. As relações entre moda e corpo são apresentadas, a fim de demonstrar a intrínseca dependência entre ambos. A aparência física comprova aquilo que cada um quer mostrar de sua subjetividade, seja para estar em sintonia com a moda, seja para se sentir bem. Há um conflito constante no mundo da moda: de um lado o desejo de distinguir-se dos demais, de quebrar as regras do jogo, ainda que temporariamente - ideia de singularidade, vontade de nos tornamos nós mesmos - e do outro há a necessidade de imitação como modo de estabelecer uma proximidade com o outro. Há um terreno esplêndido para a moda expandir-se e funcionar na subjetividade como um dos vetores mais importantes na constituição do sujeito. A Moda diz respeito a uma questão essencial para os contemporâneos, talvez a mais essencial de todas: a de sua identidade.

Palavras-chave: Corpo, Moda e Identidade.

A moda, denominada por muitos um fenômeno fútil e um caso frívolo, determina o estilo de vida e o hábito dos cidadãos. 
Pode ser considerado um fenômeno cultural e social, ligado a uma experiência de um tempo e àquilo que é visível. Através dela, é possível compreender o tempo e o contexto em que está inserida.
A vida coletiva e moderna é ditada pela moda, que está no topo do poder, no comando das sociedades. “A moda não é mais um enfeite estético, um acessório decorativo da vida coletiva; é sua pedra angular.” (Lipowetsky, 2009)
O indivíduo utiliza a moda para se distinguir, se diferenciar, para tentar uma agregação no meio social desejado e para atingir desejos. A pessoa se expressa através do vestuário e isso faz com que ela se signifique e se afirme no mundo.  A moda é parte do comportamento humano pelo fato de ela ter criado uma supervalorização da imagem, levando as pessoas a acreditarem que o corpo é o principal local da identidade. A indumentária é o elemento mediador entre o homem e a cultura (Cidreira, 2005).
O “parecer” é tema central de qualquer discussão, pesquisa e estudo sobre moda, pois é o vestuário que proporciona ao homem “toda a heterogeneidade de sua ordem” e o significa no mundo (Lipowetsky, 2009)
No meio social, o trajar assume a condição de texto e permite uma leitura sobre a identidade de cada um. Isso faz com que o indivíduo possa se apropriar de diversos signos que passem mensagens sobre ele. A vestimenta sempre foi fator modificador, transformador do corpo humano. A aparência corporal é um conjunto de determinismos estruturais e culturais, que são fundamentais na dinâmica da socialização (Cidreira, 2005).
A cidade pode ser comparada a um grande espetáculo de teatro, em que as pessoas assumem personagens através do vestuário e assim, realizam performances.  O homem tem a necessidade de se expor através do corpo, como se o que ele estivesse vestindo fosse um texto.
Georg Simmel é um autor que primeiro sugeriu a analogia entre moda e máscara. Ele diz que as pessoas muito sensíveis utilizam-se da vestimenta para resguardar os segredos da sua alma. (Simmel, 1989).           
“A moda evoluiu e continuará a evoluir paralelamente ao mundo, muitas vezes sendo tão representativa ao ponto de definir a classe social e a profissão de quem a adota.” (Marta Kasznar Feghali e Daniela Dwyer, As engrenagens da moda, Ed. SENAC Rio, 2001, p. 10).
A sociedade contemporânea ativa o desejo por corpos perfeitos, através de uma enxurrada de imagens que está em circulação em praticamente todos os meios midiáticos. O corpo humano é dotado de várias características, que nem sempre estão de acordo com o padrão de beleza exigido pela sociedade. O corpo está sujeito a mudanças que, em muitas vezes, são indesejáveis ou imprevisíveis, pois, ao longo dos anos, ele vai sofrendo alterações no peso, nas formas, no funcionamento e, inclusive, nos ritmos. Nesse contexto, a moda serve para modelar e deixar o corpo mais favorável às determinadas características. É possível parecer mais magra, alongar o corpo, esconder o que é considerado feio e valorizar o que ele tem de melhor. (SILVA JÚNIOR, LADISLAU E NIQUINI, 2006).
O corpo segue a moda, que serve de estímulo para mantê-lo sempre mudando e fazê-lo adquirir novas formas.
Os cuidados com a aparência, por exemplo, tornam-se quase que obrigatórios, já que há uma procura grande pela perfeição do corpo e isso é exigido incessantemente pela sociedade. Isso acontece exatamente a partir do desenvolvimento da indústria cosmética, na lógica do só é feio quem quer (MESQUITA, 2004, p. 63).
De acordo com Mendonça (2008), o jeito do indivíduo se vestir, mesmo que ele siga ou não as tendências, expressa as características e subjetividade do mesmo, já que ele encontra na roupa uma forma de manifestar-se sobre a sua “tribo”, a sua classe social e até mesmo, sobre coisas ainda mais subjetivas, como o seu humor naquele dia, por exemplo.
A identidade é uma particularidade que cada ser humano. O Dicionário Aurélio (2008), define a identidade como um conjunto de características próprias e exclusivas de cada ser humano com os quais elas são diferenciadas umas das outras, seja pelo conjunto das dessemelhanças, peculiaridades ou das características semelhantes. Pode-se incluir, nesta conjuntura, o modo de se vestir e como a pessoa utiliza-se do seu corpo e da moda. 
O individualismo pode ser identificado em diversos setores da moda, da vida e das atitudes, mas nunca se manifestou tão fortemente como no vestuário, “isso porque o traje, o penteado, a maquiagem são os signos mais imediatamente espetaculares da afirmação do Eu.” (Lipowetsky, 2009). As escolhas individuais fizeram com que a moda fosse um instrumento de liberdade e da diferença.
A busca pela identidade se deu de diversas formas ao longo dos séculos, mas a moda não está presente em toda a história. Ela tem um começo identificável. Durante muito tempo, as sociedades se desenvolveram sem o conceito do efêmero, do novo e sem a instabilidade trazida por eles. Mas, a partir do final da Idade Média já é possível reconhecer “a moda como sistema” (Lipowetsky, 2009).
Homens e mulheres se vestiam semelhantemente no século XV ( Wilson 1985). As vestimentas apertavam os seios das mulheres para que eles ficassem sem formas, as golas das blusas eram viradas, os chapéus eram altos e com abas redondas, os punhos eram como os de mosqueteiros, além de terem que usar, ambos, luvas, sapatos, meias e calças. Esse período marcou a falta de identidade de gênero, uma vez que todos usavam no corpo as mesmas vestimentas, sem distinção de cores e modelos. Pode-se dizer que era uma época em que os direitos e deveres das mulheres e dos homens eram praticamente iguais. Não havia tanta distinção de gênero e o sexo feminino não era considerado tão frágil.
A moda começa a aparecer antes da metade do século XIV, quando os vestuários masculinos e femininos se distanciam um do outro e exaltam mais os atributos de cada sexo (Lipowetsky, 2009).
No século XVII, a roupa começava a representar, segundo Wilson (1985), a privacidade, o conforto e a higiene, direcionando à ideia de decência, modéstia e delicadeza, os quais, podem ser identificados como identidade. A burguesia demonstrava, por meio de suas roupas, identificação de moral, sobriedade, bom gosto e requinte. Por muito tempo, essa classe queria se assemelhar à Aristocracia, e essa, por sua vez, tentava mudar para ainda ter a identidade soberana. A burguesia, no entanto, não aderiu a todas as excentricidades da aristocracia e foi lapidando a sua moda. No século XVII já existe uma moda paralela à da nobreza “livre dos excessos aristocráticos e conforme aos valores burgueses de prudência, de medida, de utilidade, de limpeza, de conforto.” (Lipowetsky, 2009).
 No começo do período industrial a diferença entre os gêneros era mais evidenciada por meio das roupas, tendo a moda como elemento fundamental para a individualidade dos gêneros. Foi no período industrial que as roupas surgiram de forma mais elegante, com maior poder de atração sexual.
No século XIX, a identidade, identificada pela aparência da mulher burguesa era uma forma de produção artística, tendo ela uma personalidade única, educada para o casamento. Nesta época, o vestuário era um dos aspectos da mobilidade social. 
No período pós-moderno aparece a diversidade de estilos, fazendo que o mundo se fragmente e deixe de ter a moda parisiense como sua pedra angular. Assim, começa a surgir uma mistura de estilos como reflexos, dentre as quais, pode-se citar o retro-chique, o plagiarismo, o étnico-chic, dentre outros. 
No pós-guerra, as mulheres voltaram a se trajar mais semelhantemente com o vestuário masculino, pois precisavam ir trabalhar e sustentar a casa, já que o marido estava na guerra ou tinha sido morto. O vestuário representa, também a identidade que aquele corpo precisa assumir para melhor sobreviver.
Essa transformação ao longo dos anos levou o homem a criar seu próprio estilo. Segundo Mesquita (2004), desta forma é possível questionar se o seu corpo é a identidade de cada indivíduo. Além disso, a subjetividade e corpo devem ser considerados como algo único, uma vez que o corpo é o lugar onde a subjetividade é concretamente materializada e encarnada. 
O homem cria sua particularidade por meio da transformação física e, assim, busca obter controle sobre si próprio e sobre seu destino. Ele constrói também sua representação física e valoriza sua imagem pessoal. Além disso, sua identidade é reafirmada como na criação de uma segunda pele. É a esse modo de se vestir, de escolher a moda que deseja, a preocupação com a aparência e na transformação do corpo que é dada a construção da identidade, materializando o próprio corpo. (Mesquita, 2004). 
Na busca incessante pela identidade, o homem passa a ser um consumidor complusivo, pois precisa preencher o vazio dentro dele, que se dá devido à efemeridade da moda. A moda, que é sinônimo de mudança passa muito rápido e já é substituída por outra. Assim, a identidade que estava sendo construída é perdida, mas já suprida instantaneamente, causando uma sensação de perda no ser humano.
Segundo Erner (2005), outra forma de criar a identidade, é a associar a moda com a religião, visto que as pessoas possuem suas dignidades diferentes e individuais, mas que atende parcialmente a mesma função, o qual seja a de influenciar no modo como a identidade é fabricada na atualidade. Essa mesma sociedade que determina moda e religião adotou como princípio dominante a autonomia, o qual cada ser tem a livre escolha para fazer da sua vida o que decidirem. No caso da religião, há certo determinismo e, em matéria de roupa, o homem decide sua maneira de vestir. Isso reflete, diretamente, no trabalho sobre sua identidade.
As marcas também tem o seu papel na procura pela identidade humana, uma vez que há a preocupação com a moda requintada. roupas finas, de grife, também são uma forma que o homem encontrou para construir sua identidade. Os adolescentes, por exemplo, preocupam-se em vestir roupas de marca como forma de integração a um determinado grupo. É essa preocupação que eles têm com a aparência que se transforma em uma busca de identidade. (Erner, 2005). O poema de Drummond ilustra bem o tema:
Minhas meias falam de produtos
            Que nunca experimentei
            Mas são comunicados a meus pés.
            Meu tênis é proclama colorido
            De alguma coisa não provada
            Por este provador de longa idade.
            Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
            Minha gravata e cinto e escova e pente,
            Meu copo, minha xícara,
            Minha toalha de banho e sabonete,
            Meu isso, meu aquilo.
            Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
            São mensagens,
            Letras falantes,
            Gritos visuais,
            Ordens de uso, abuso, reincidências.
            Costume, hábito, permência,
            Indispensabilidade,
            E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
            Escravo da matéria anunciada.
            Estou, estou na moda.
            É duro andar na moda, ainda que a moda
           Seja negar minha identidade

(Fragmento do poema “Eu, etiqueta”,
Carlos Drummond de Andrade, Corpo, Ed. Record, 1986. p. 85)

Contudo, a construção da identidade via moda não se limita apenas à ideia de seguir tendência ou usar roupas de marca, mas, também, é algo constituído culturalmente pelas próprias sociedades, uma vez que elas se pautam pela aparência. 
O homem tem necessidade de distinção e imitação. Assim como aconteceu entre Burguesia e Aristocracia, no passado. A primeira queria ser considerada tão nobre quanto a segunda a imitava e a segunda queria ser ainda mais superior, mudava a fim de distinguir-se.
A identidade, segundo a sociedade reflexiva, é criada por meio das roupas e marcas e, esses podem informar sobre a posição social e às vezes sobre seu nível de renda. Já a identidade criada pelas sociedades aristocráticas foram baseadas na relação de submissão entre os homens à convenções quase “fixas”. Hoje as formas evoluem, surgindo, juntamente, a necessidade de atualizar o conhecimento de convenções que não param de se transformar. 
Considerando a junção de todo o contexto da identidade, a moda se torna “nós mesmos”, em que cada um é individualizado não mais se mobilizando coletivamente, pois a modernidade fabricou um homem voltado para si mesmo. Tal realidade leva à síndrome da compra compulsiva. Esse distúrbio refere-se à obsessão do individuo pela mudança de identidade, de procurar ser ele mesmo e ao mesmo tempo querer se tornar outro. Assim, surgem várias personalidades dentro de um mesmo corpo.
Dentro do consciente de cada um há a vontade e necessidade de tornamos nós mesmos e o desejo de entrarmos em relação com o outro. Desta forma, a moda pode experimentar ter esse papel integrador; ela permite que o indivíduo se situe pela oposição, que ele se integre e, ao mesmo tempo, se diferencie (Erner, 2005).
Nota-se, neste contexto, que a moda se revela como uma ansiedade do individuo por se tornar ele mesmo com suas relações com as tendências e marcas, fazendo com que estes se tornassem um importante componente do jogo social. O indivíduo satisfaz uma das necessidades essenciais do ser humano que é narrar contos para si e para os outros, sendo o narrador em alguns casos, o leitor em outros, tendo a identidade como elemento inseparável da narrativa. 
As histórias, segundo Erner (2005), são contadas pelas grandes marcas para vender o maior numero possíveis de objetos, permitindo ao consumidor projetar sonhos ou fantasias. O homem acredita que é por causa da moda, seja ela criada ou sonhada, que fez com que as pessoas se tornassem tão pessoas, cada um conforme sua personalidade. Cada um pode escolher uma identidade, trocar de cabeça ou de corpo para finalmente ter aquele que merece e, neste caso, a moda responde à preocupação de forma agradável, satisfazendo a criança lúdica que existe em cada ser humano no processo de construção identitária.
Por fim, a moda liga corpo e ser, satisfazendo o imaginário humano. A subjetividade do homem é mostrada pelo modo dele se apresentar à sociedade, em que o grupo, classe social, desejos de agregação ou distinção são demonstrados através da vestimenta. Então, o que é visto como frivolidade, afinal não pode ser considerado tão fútil assim, pois a moda exterioriza o que o ser humano é, ou deseja ser, por dentro. 


Referências Bibliográficas:

CASTILHO, Kathia (Org). Corpo e moda: por uma compreensão do contemporâneo. Barueri: Estação das Letras e Cores Editora, 2008.
ERNER, Guillaume. Vítimas da moda. São Paulo: Senac, 2005.
MARTINS, S. B. Ergonomia e moda: repensando a segunda pele. São Paulo: Estação das letras e cores, 2008.
MESQUITA, Cristiane. Moda Contemporânea: quatro ou cinco conexões possíveis. São Paulo: Anhembi Morumbi, 2004.
SILVA JUNIOR, José Aelson da; LADISLAU, Carlos Rogério; NIQUINI, Cláudia Mara. A moda na carne viva: imagem, corpo e consumo: aproximações teóricas. Montes Claros: Unimontes, 2006.
SUGIMOTO, Luiz. A história do corpo humano. São Paulo: Universidade Estadual de Campinas, 2005.
WILSON, Elisabeth. Enfeitada de Sonhos: moda e modernidade. Tradução Maria João Freire. Rio de Janeiro; Lisboa – PORTUGAL: Edições 70, 1985.
LIPOWETSKY, Gilles. O império do efêmero. Cia das Letras: São Paulo, 2009.
Fragmento do poema “Eu, etiqueta”, Carlos Drummond de Andrade, Corpo, Ed. Record, 1986. p. 85.